segunda-feira, 31 de maio de 2010

Plano Piloto


"Eu tenho amigo por toda parte. Na praia, no cinema, teatro, favela... Amigo jornalista, garçom, vagabundo. Meu negócio não é somar, é multiplicar! Sozinho eu não dou conta. Eu ando em bando, camuflado, descarado, fazendo festa. Me sinto em casa no meio da rua, na madrugada, na multidão. Eu sou da tribo do abraço!"

Em números foram 1.174 quilômetros, 1.174.000 metros. 20 horas, 3/4 de um dia inteiro. Dentro de um ônibus, por maior que seja o conforto que ele ofereça, 20 horas é bastante tempo. Por maior que seja seu conhecimento musical, por mais articulado, engraçado, bom de prosa que você seja, 20 horas ainda é bastante tempo. Uma hora os dvd's piratas comprados da Mirandela, em Nilópolis, acabam. As músicas, dentro de 20 horas, vão se tornando cada vez mais cansativas de se cantar. Vinte horas é tempo o suficiente pra dormir, acordar e ainda estar dentro do ônibus, na estrada. E foi assim que começaram, pra mim, os Jogos das Instituições Federais de 2O1O: Com uma longa e cansativa viagem do centro do Rio ao centro de Brasília, ao centro do Brasil.
Maldita Novacap, maldito Plano Piloto! Maldito Juscelino, maldito Israel Pinheiro, maldito Niemeyer! ...Brincadeira! Nem tenho tantas coisas contra eles. Quase nada, na verdade. Mas bem que a capital podia ser mais perto dos maiores centros do país, né?! O Brasil nunca entra em guerra com ninguém. A capital lá no inferno não serve pra nada, então! ...Mas esse é assunto pra outro post, vou voltar a falar do JIF.
A idéia utópica de um JIF onde eu quebraria as barreiras da sanidade e do comportamento começaram a ser quebradas já na ida. Ficamos VINTE HORAS (Eu não canso de repetir. Pra você pode parecer pouco tempo, mas entra num ônibus e se tranca lá por 20 horas pra você ver.) lá dentro com 8 ou 9 meninas e ninguém comeu, nem pegou ninguém. Na Lapa, em menos de 5 horas, você tá se gabando pro seu amigo do lado que já pegou 8 ou 9. Tá certo que tem o desconto do clima que é diferente e que um time de futsal feminino não é dos mais bonitos... nem dos mais heteros. Mas deixa eu achar que as coisas começaram a dar errado aí, okay?!
Um time de volei indo disputar um campeonato nacional da handebol. A cota masculina da nossa delegação era essa. Com exceção três atletas (e eu estava incluso nessa lista), todo o resto jogava volei. Estávamos, declaradamente, indo pela diversão. Enchemos algumas mochilas com bastante álcool, suficiente pra embebedar o ônibus inteiro, se o Artur não tivesse bebido mais do que devia. Foi engraçado ver ele daquele jeito. Foi engraçado, também, ver o ônibus parando antes do previsto, pro motorista limpar toda a sujeira que ele fez, depois de vomitar no chão. Sem contar as janelas sujas, depois que botaram a cabeça dele pra fora. Ah, sacanagem, eu não devia ter contado isso! ...Se bem que a regra era: "O que acontece em Brasília, fica em Brasília", e nós não estávamos em Brasília ainda!
Por fim as exaustivas 20 horas passaram e nós chegamos, após ficarmos perdidos por algum tempo, é claro! Porque esses motoristas de ônibus de viagem nunca sabem onde estão, por mais que eles já tenham estado no local centenas de vezes? Uma vez, em Ipanema, um deles me perguntou se tava perto do Barra Shopping. Eu disse que sim, que ficava na esquina da Nossa Sra. de Copacabana com a Farme de Amoedo. ...Onde eu estava, mesmo? Ah, sim: Chegando em Brasília.
À primeira vista ia ser tudo que nós pedimos à Deus. Privacidade, liberdade, pagode todo dia, diversão, bebida e mulher à vontade. Acho que àquele ponto, depois de tanto tempo aturando a gente, até as meninas da nossa delegação estavam querendo armar um boteco, tocar um pagode e azarar umas gatas calangas. Fala sério... eu é que não tinha saído do Rio pra pegar uma carioca, ainda mais com os hotéis ao redor lotados de gente de todos os atletas de todos os estados. (Não vou explicar como é o esquema do JIF. Se te interessar pesquisa no Google.)
Meu quarto era legal e, até então, eu ia ficar sozinho nele. O 8004 era a minha cara, até o quadro, que enfeitava a parede, combinava. Duas camas macias (tão macias que pareciam camas elásticas... tem até um video, qualquer dia eu upo e posto.) só pra mim, olha que beleza! Frigobar cheio, que eu esvaziei e não paguei, ar funcionando, controles em pleno estado de conservação, Mal podia esperar pela hora de dormir. Mas minha alegria durou pouco! Depois da janta despacharam o Andrew pra ser meu companheiro de quarto. Mas tudo bem: Antes o Andrew que é engraçado do que o Batata, que não calou a boca a viagem toda e que não ia me deixar dormir. O que estragava no meu quarto era a vista - pros fundos do hotel, em obra, de frente pros fundos de outro hotel, tampando qualquer paisagem bonita que tivesse além disso (mesmo que eu soubesse que não havia nada interessante depois disso).
A comida até que não era das piores nos (dois) primeiros dias. Mas era melhor que o lixo que chamam de comida mineira, que eu fui obrigado a comer na viagem. A bebida lá era liberada, então se tivesse ruim de engolir, a gente empurrava com refrigerante. A hora da refeição também servia de encontro e interação entre as delegações. Todo mundo almoçava e jantava na mesma churrascaria. Churrascaria Chama, conhecem? Dizem que a melhor é a Fogo de Chão, mas o Governo nos deixou pra morrer com a comida repetitiva e sem gosto da Chama. Tudo bem, foi lá que eu conheci pessoalmente quase todas as pessoas com quem eu já conversava pela net, nas semanas que antecederam a competição. Eu acho que as pessoas iam lá mais pra interagir do que pra comer.
Já no primeiro dia a gente resolveu agitar as coisas. Uma garrafa de Tequila, uma ligação pros quartos das meninas e em meia hora estávamos tentando embebedar alguém... Dessa vez só por diversão, mesmo. É claro que não deu certo. Mas foi legal, porque algumas pessoas da delegação que eu não conhecia ainda foram pra lá também. E como tava só começando, eu não tava me importando muito com o resultado daquela noite.
O dia seguinte era domingo, dia da abertura. Alguma expectativa em cima disso, também, porque achei que fosse ser um mega evento, com participações internacionais onde eu fosse me embebedar, me drogar e conhecer todo o tipo de gente interessante que eu pudesse conhecer. Tá, não foi tão ruim. Só não foi um mega evento, com participações internacionais, eu não me embebedei, não me droguei e não conheci ninguém tão interessante assim. (Tinha a Maria Alice, a menina de Campos que segurou a bandeira do Rio comigo, mas se eu for parar pra falar dela vou ter que escrever demais, e não tô muito afim.)
Segunda, acordamos todos bem cedo, pra ir pro primeiro jogo. Ia ser contra Rondônia ou Roraima, eu não sei a diferença entre os dois. Perdemos, claro.
Terça, nosso segundo jogo, contra Ceará. Perdemos de novo. Eu joguei super bem os dois jogos, mas uma andorinha só não faz verão. E deu até pra espalhar uma maldade depois do jogo.
Agora sim, eliminados e ausentados de qualquer compromisso, ia começar o JIF pra nós. Ainda era quarta, mas parecia que já estávamos ali há mais dias. Eu não me importava, mas isso parecia incomodar algumas pessoas. Incendiando tudo ao meu redor eu preferi simplesmente me dedicar apenas ao lazer. Que tarefa difícil a minha. Olhei à minha volta e vi que a moçada da minha delegação era, pra falar a verdade, menos interessante do que os vizinhos do CEFET RIO. E foi pra lá que eu me mudei nos dias seguintes. Café da manhã, almoço, jantar e até os jogos eu ia assistir com eles. É claro que a noite, quando todos os gatos são pardos, era com a delegação de Nilópolis que eu fugia pros outros hotéis. Nesse ponto o pessoal do centro era mais cauteloso.
Eu conheci muita gente curiosa. Gente alta que jogava tênis de mesa, gente baixa que jogava volei... Ah, conheci o time de volei de Amazonas, que mais parecia ter saido de uma manifestação GLBTS. Conheci os amigos do Pará. Fiz amigos até no Acre, who knew! Gente bonita da Paraíba, gente feia do Sul. Negros do Paraná e brancos baianos. Vi capixaba tocando pandeiro e conheci um maranhense que tocava violino. Uma festa de sotaques invadia minha cabeça todas as noites, antes de dormir. Clima de festa, clima de férias, clima foda.
Meus horários começaram a desregular loucamente, e eu perdi algumas saídas e almoços da delegação. Passei uma ou duas tardes assistindo Discovery e filmes. Tava me sentindo em casa... E a semana foi passando.
Quinta era dia de uma tal festa de confraternização. Todo mundo muito bem arrumado, empolgado e ensaiando suas melhores caras e cantadas na frente do espelho... em vão! Meu ônibus chegou com bastante atraso lá (culpa do motorista, óbvio.), mas quem chegou cedo, garantiu que nós não perdemos nada. Música ao vivo, que eu não me dei ao trabalho de escutar e 2000 jovens sentados à toa. Prefiro ir ao Churrasquinho do Jorge, na Alberto Teixeira, alí em Nilópolis. É o mesmo clima, mas com comida bem melhor. No dia do apagão aqui do Rio eu tava lá: Comemos muito e não pagamos nada. Bêbado é uma desgraça.
Sexta-Feira tinha chegado! O último dia, as últimas oportunidades, o fim das esperanças. Por sorte ela é a última que morre, porque sexta foi, de longe, o melhor dia dessa semana. Não lembro o que eu fiz durante o dia. Acho que dormi ou fiquei vendo Discovery. Mas a noite foi o ponto alto. Peguei um taxi com o Andrew e fui pro Pontão, encontrar com o povo. Que lugar! Devia ter um daqueles aqui no Rio, alí, margeando a Rodrigo de Freitas, ficaria perfeito. Muitas fotos, muitas risadas, algumas cantadas... Mas 11 horas era o toque de recolher até quando a gente saia. Voltamos pro Hotel. Era o último dia e ninguém queria saber de obedecer muitas regras. Eu descobri o 14º e como era legal fazer bagunça lá, tendo que se esconder toda vez que a luz vermelha do elevador acendia. Descobri junto com o Douglas o melhor esconderijo atrás da cortina que há. Descobri que as meninas da minha delegação parecem gralhas, de tão alto que falam. Descobri que virar a noite com amigos é bom em qualquer lugar do mundo. (Eu nunca virei a noite no Afeganistão, por exemplo, mas lá deve ser bom, também.) Mas as horas passam com tanta rapidez quando as coisas estão boas... Amanheceu!
Amanheceu, tomamos café, sentamos no gelado, o Douglas desfilou nú, com o termômetro marcando -2 graus... O sono bateu e a gente foi se abatendo, logo àquela hora... na hora de ir embora. Despedidas sempre são chatas demais pra mim. Eu sempre fico meio triste na hora de ir embora, mesmo que seja hora de ir embora de uma aula chata ou do hospital... eu fico triste, pô! Que que tem?!
A cidade era chata, mas eu descobri no meio dos cariocas, conterrâneos, que eu não preciso percorrer quase 2000 KM de distancia ou mais de 20 horas de viagem pra fazer bons amigos, pra conhecer gente nova, inteligente e interessante. É fato que, como em todas as boas jornadas, fica a saudade. Acho que é por isso que odeio os finais das coisas. Fico triste até quando a Copa acaba e o Brasil ganha, porque quando acaba a Copa, fica aquela visão nostálgica e impertinente de que daqui há 4 anos aquelas pinturas e decorações ainda estarão alí, desgastadas.
Enfim, agora eu sinto falta do cheiro que meu 8004 tinha. Falta da faxineira bonitinha que batia lá todo dia, com aquele sorriso simpático. Falta dos longos passeios no elevador, que insistia em parar em varios andares. Falta do café da manhã decorado: Duas fatias de pão, uma de queijo, uma de presunto, dois pães de queijo, dois iogurtes de côco e um copo de suco de laranja com cinco colheres de açúcar. No café da manhã era bem divertido ver o Chamarelli e o André fazendo graça, eu morria de rir. Sinto falta de planejar o dia e ver os planos frustrados depois. Sinto falta de ouvir o Leo cantando a música do Mogli ("Necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais"). Ou dos moleques zoando o Modelo, por causa da Carol ("Grangeeeeia, Carol Grangeeeia"). Sinto falta, também, da Nathalia, reclamando toda hora, por causa do Pimenta, que é lerdão e de cantar Carro, Futebol com a Nathana, que foi puro fechamento o JIF inteiro. Da vontade de ligar pro 1414, pra bater papo e dar boa noite pra Alissa, e de pedir pra ela me acordar de manhã. (Se ela não tiver com diarréia, claro!). Não foram tantos momentos bons, como os do meu primeiro JIFET, em 2008. Que nem aquele eu sei que dificilmente eu terei. Mas sempre vale a pena, porque o lucro é bem maior que o custo. E eu nunca pensei que fosse dizer isso... Mas dá saudade de Brasília, minha pequena e sem graça Capital. Boa noite, Willian Bonner.


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